Artur Salles Lisboa de Oliveira
Na Venezuela, Hugo Chávez instituiu a educação bolivarianista, cujos preceitos obrigam as crianças, desde cedo, a reverenciar ícones regionais contra a opressão das grandes potências, entupindo assim a mente das gerações mais novas de devaneios ideológicos que não se sustentam por inúmeras razões, dentre elas pelo modelo econômico predominante no mundo atual do qual o próprio Chávez tira a sua sobrevivência.
No Brasil, o governo ainda reticente do impacto da implantação de uma política similar à venezuelana, por meio da qual os estudantes deverão aprender que a partir de 2003 se iniciou no País uma série de transformações sociais, econômicas, políticas, morais e éticas sem precedentes no Mundo, experimenta a inserção de questões de louvor à administração atual na prova de conhecimentos gerais do ENADE.
Há dois aspectos interessantes na inserção de perguntas tendenciosas e cheias de ideologismos na avaliação mencionada: primeiro, supondo que os estudantes tenham interesse em acertar o maior número possível de indagações, fica evidente que alguns deles terão que ir de encontro às suas interpretações da realidade com o intuito de garantir mais acertos, já que fica evidente a intenção de promover o governo em tais questionamentos. E obrigando profissionais recém saídos das universidades a assinalarem de forma divergente ao que eles pensam, cria-se uma situação de concordância conveniente que pode alcançar por repetição níveis de obediência crônica, o que configuraria um estado de ditadura.
O segundo ponto é a possibilidade de retaliações. Quem insere questões dessa natureza em uma prova de dimensão nacional como o ENADE com certeza vai querer obter estatísticas quanto às opções assinaladas pelos estudantes. E considerando que todos os inscritos expõem seus dados de forma pormenorizada é possível que, além de ter dado um passo crítico para ceifar a liberdade de expressão no Brasil, o governo tenha também aberto caminho para um ensino obtuso e cheio de ideologismos ceguetas que começarão a ser absorvidos pelas próximas gerações caso não aproveitemos ainda a timidez com a qual o governo demonstra sua intenção absurda de ensinar os jovens a reverenciá-lo.
E em um País no qual uma jovem de uma universidade paulista não sente nenhum constrangimento em dizer em rede nacional que a pequenez de seu micro vestido se dá pelo fato de que as quintas e sextas são reservadas - após os horários das aulas, importante deixar bem claro - para as baladas, o que esperar de uma juventude que pode ser confrontada por tentáculos chavistas que começam a ganhar corpo na medida em que a opinião pública e a imprensa não reagem de forma proporcional ao absurdo?