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04 de fevereiro de 2012

Sua Vez/Coletor de luxo do luxo

Ronaldo Duran: Coletor de lixo do luxo

Publicado em 30/12/2009, às 08h17
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Ronaldo Duran

Desceu do coletivo lotado. No rosto amassado pelas cobertas, tinha aparência de quem acabou de acordar. Na boca, o hálito de pão com manteiga e café. O corpo magro ajuda na agilidade para transformar cada passo em quatro de um caminhante comum. Atravessa apressadamente avenidas, ruas, e faixas de pedestre. Não que seja hábito atrasar-se, mas hoje não deu para evitar.

Lá, estava a empresa. “Corre lerdo”, o motorista bradou, e ele não teve tempo para conferir se a expressão era brincadeira ou denotava irritação pelo atraso de cerca de meia hora. Bateu o cartão. Vestiu a roupa em frações de segundos. Correu para alcançar o caminhão já do lado de fora. Pulou e agarrou-se ao apoio de ferro no qual costumava ir dependurado do momento que saía da garagem até o instante em que retornava. Claro, exceto nos momentos que corria nas ruas, pegando os sacos pesados ou leves de lixo.

A área de atuação de sua equipe era na zona sul. A empresa localizada noutro canto da cidade proporcionava um passeio de vinte ou mais minutos para alcançar o destino. Atingido o ponto, descia animado do caminhão. Pega os sacos, e os carrega com uma nítida expressão de prazer estampada no rosto. Nem sempre foi assim, é bom frisar. Exatamente quando passou a compor a equipe de coleta seletiva do lixo, é que se animou. Agora, recolheria lixo do luxo, o lixo reciclável. Estaria livre da fedentina, do mau cheiro emanado de restos de comida, fraldas descartáveis, fezes e urina de gato ou cachorro...

Quase uma década na Urbam. Muita batalha, muitos sacrifícios. Não estava reclamando. Entrara na prefeitura. Ela lhe proporcionara uma vida digna. Convênio médico, vale alimentação, creche para os filhos, além de um salário que embora não desse para supérfluos, o ajudara erguer uma casinha no bairro que passara toda a adolescência. Conseguiu casar, constituir família.

Mas era dose suportar o mau cheiro o dia inteiro que parecia entrar na carne, impregnar a alma. Sorte que veio a invenção do lixo reciclável. Melhor ainda, que a empresa adotou.

Todos desejam conquistar o que é bom. Como a sorte vivia se esquivando dele, pensou que jamais teria oportunidade na vaga disputada”. Quando viu seu nome na escala, nem acreditou. “Se você não quiser, pode falar...” disse o chefe. No que ele prontamente respondeu . “Quero sim...”

Se caso alguém gritasse: “oh, cheiroso”, frase ouvida às vezes da boca de moleques ou pessoas desprezíveis que gostavam de provocar o coletor de lixo, ele certamente riria de satisfação.

*Ronaldo Duran, romancista, colabora neste espaço. E-mail: contato@ronaldoduran.com


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