Ronaldo Duran
Fico vendo meus filhos. Eles são tão fr escos. Não comem quiabo nem jiló, não gostam de berinjela, detestam inhame, tem a que fica tonta com o simples cheiro de peixe. Na frente deles acontece um quê de indignação de minha parte. Às vezes inclusive esqueço que tive minha época de fresco em relação aos dotes culinários de minha mãe. Crise de gerações? Pode ser. Ela vivia me dizendo se tu passasses fome comeria até pedra. Eu odiava quando fala assim. Hoje me seguro para não despejar o mesmo desabafo em cima das minhas crias.
O bom é que nunca me interrogaram se eu comia tudo o que me davam quando garoto. Seria forçoso admitir que, muitas vezes, eu torci o nariz para macarronada ou sopa.
Ainda no terreno dos segredos que mantenho diante deles, tem o caso interessante da pamonha. No tempo em que eu era adolescente associava o nome pamonha como pejorativo. No Rio, usávamos este adjetivo para classificar a pessoa covarde, medrosa, que tem medo de sair no braço, que não encara o sujeito que o ofende.
O adjetivo não fora inventado por mim nem por minha geração. Ouvíamos na boca dos nossos pais, avós. Sempre que não queríamos pegar pesado no palavrão, o nome pamonha vinha à mente.
Que eu me lembre minha mãe nunca pediu para que comecemos pamonha, daí eu pensar que o nome se tratava apenas de uma ofensa. Espanto maior eu tive quando em Taubaté, on de cursei Educação Física, soube que era comida. Estávamos na República, quando eu ouvi o carro com alto falante gritando olha a pamonha quentinha, gostosa, corram.
Terminada a faculdade, casei com uma veterinária, e assentamos moradia na Pindamonhangaba. Os anos passaram. Chegaram os três filhos. Eu nunca que imaginava provar o prato. Até que num dia, com minha filha a tira colo eu fui à feira na quinta-feira. Lá, vi o curau e a pamonha. Comprei ambos. Ela adorou o curau, e eu devorei a pamonha. É feita de milho. Fui criado à base dos minguais de milho que minha avó fazia. O sabor da pamonha foi nostalgia pura. Se eu soubesse a mais tempo que era tão familiar!
Veja só, eu um comedor de pamonha. Logo eu que durante anos achava cafona, brega. Que não caía bem sequer ouvir os vendedores gritando na rua. Não sei explicar, parecia algo muito distante do meu mundo.
De uns tempos para cá fico num frisson na quarta-feira à noite... No dia seguinte, na feira, comprarei a bendita pamonha. Pode?
*Ronaldo Duran, escritor, colabora neste jornal toda semana. www.ronaldoduran.com
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