Está tudo bem. Escrevo de Santiago, Chile, em perfeitas condições de saúde e sem nenhuma perda material – não poderia haver situação melhor para quem tomou um chacoalhão.
Felizmente, a capital chilena está preparada para uma experiência como essa, a de um terremoto de 8,8 graus de magnitude na costa do país, com reflexos na capital. A presença do país no Cinturão de Fogo do Pacífico determina algumas regras para a construção civil a fim de garantir a flexibilidade dos edifícios. É estranho pensar num prédio flexível, mas debaixo do batente da porta onde me abriguei por volta das 3h30 do sábado eu podia ver paredes, chão e teto numa coreografia “para-lá-e-para-cá” que poupou muita gente, com certeza. Foram dois intermináveis minutos.
Até agora, domingo à tarde, a terra treme com alguns intervalos. São as chamadas réplicas do terremoto, que devem durar semanas, mas que vão ficando cada vez mais seguras conforme o tempo passa.
Para mim, a pior parte disso tudo, no entanto, foi a falta de comunicação com o Brasil. Imediatamente após o terremoto, os serviços de água, energia elétrica, telefonia e transporte foram suspensos. No sábado pela manhã, caminhei por seis horas e meia, desde as 8h até as 14h30, para encontrar um telefone que completasse uma ligação internacional; os poucos que estavam funcionando só realizavam chamadas locais. Fui até o consulado brasileiro, que estava fechado, assim como o argentino e o britânico. Tentei até o Ministério da Defesa, sem sucesso. Finalmente, por volta das 15h, conversei com minha mãe, que estava apavorada.
Até agora a energia elétrica não foi restabelecida na capital. O metrô continua parado, sem previsão de retorno. O comércio não abre desde ontem por medo de saques. Independentemente disso, a cidade está funcionando. Em nada Santiago lembra Porto Príncipe. Os chilenos são muito solidários e organizados. Alguns me contaram, com uma ponta de orgulho, que a população sabe como se portar diante de um terremoto ou mesmo um tsunami porque todas as crianças recebem treinamento na escola prevendo o pior.
As rádios locais afirmam que a pior situação está no sul do país, onde foi o epicentro. Alguns povoados sumiram. Ondas gigantes adentraram até quatro quilômetros em relação à praia.
Estou apreensiva quanto à minha volta ao Brasil. O aeroporto continua fechado e a companhia aérea não tem nenhuma informação ainda. Meu desembarque no aeroporto de Guarulhos estava previsto para esta segunda-feira às 16h45.
Sem dúvida, essa foi a situação mais aterrorizante que vivi. Durante dois minutos só podia pensar em abraçar as pessoas que amo. Em dois minutos senti que meus planos poderiam não se concretizar. Isso tudo só me fez sentir mais falta do carinho da família, do namorado, dos amigos, das paisagens do Brasil, dos teclados normais que permitam escrever com acentos corretos.
Espero que possamos nos encontrar em breve, muito breve.
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