Ronaldo Duran
Sexta-feira à tarde. A professora fala que se a turma ficar quieta ela promete que para de escrever no quadro. A bagunça continua. Por culpa mais dos meninos, que ficam correndo pela sala, pegando borracha, lápis, canetinhas da mesa das meninas. E aí elas vão atrás deles, berrando. Apesar dos barulhos, esbarrões, até brigas, eu prefiro a escola. Estou na terceira série, tenho nove anos. Todo mundo não vê o momento de chegar sexta-feira, último dia de aula na semana. Mas eu fico triste.
A tristeza é um pouco pela falta dos colegas, da professora de Português, da merendeira, que são legais comigo. No jardim da escola, no corredor, a gente se sente em casa.
Em casa? Minha casa me deixa triste. Não porque é simples. São meus pais. Papai e mamãe bebem. Ele bebe mais que ela, e aí vem a gritaria, as brigas, os choros, xingos, palavrões. Mamãe grita também, e depois chora. Vendo seu choro, eu e minha irmã menorzinha sofremos.
No portão da escola, está ele. Meu pai. Calção e camisa. Nos pés, chinelos. A cara inchada de cachaça. Eu gosto dele, mas o fedor do cigarro, do bafo... Digo adeus para as amiguinhas. Pego na mão dele. É meu pai, gosto muito dele.
Seguimos direto para um cruzamento. Ali está minha mãe e irmãzinha, que ainda não vai para a escola, pois tem cinco anos. Quando me vê chegando, corre em nossa direção. Papai grita: “fica aí, não atravessa. É perigoso”. Ainda bem que ela obedece e para. Os carros passam voando. Dobrando a esquina está mamãe. Salgadinhos, balas, doces, biscoitos numa caixa que segura na mão esquerda, enquanto que a mão direita pega o dinheiro do motorista apressado para receber o troco.
Eu não sei o que está acontecendo comigo? Comecei a ter vergonha deles, meus pais. Não por estarem trabalhando, mas pelos cigarros que fumam e pela cara amassada de cachaça. Ontem, eu estava ajudando e vi um moço lá do ônibus me olhar. Fiquei triste com seu olhar, ele parecia ter pena de mim.
Bem tarde da noite, andamos um bom pedaço para casa. Descansar para no fim de semana trabalhar muito. Mamãe diz que é para tirar o atraso da semana, que tenho que ir para escola. Eu gosto da mamãe, do pai, mas gostaria de viver com a professora de português ou com a merendeira...
* Ronaldo Duran, escritor, colabora neste jornal toda semana. Visite o autor no facebook.www.twitter.com/ronaldoduran_