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08 de fevereiro de 2012

Sua Vez/ronaldo dran

Ronaldo Duran: O mundo no escuro

Publicado em 12/06/2010, às 20h44
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ronaldo duran

No ponto de ônibus, espero. Uma voz quer-uma-ajuda me conduz até aos degraus do coletivo. Ouço um zumzumzum de pernas estralando. Outra voz senta-aqui me aloja num banco. Suponho que seja o da primeira fileira em função dos poucos passos que dei. Geralmente os aceito. Desenvolvi um faro para saber não se tratar de mulher gestante, com criança no colo ou pessoas mais necessitadas que eu. Nesses casos, fico em pé.

Hoje está fazendo um ano de carteira assinada. Há um ano, estava meio ressabiado, deslocado, ainda que seja do tipo extrovertido. Agora, parece confundir sua personalidade com a da empresa. Sabe as manhas. Esquiva-se das possíveis surpresas dolorosas, e goza antecipadamente as agradáveis. Ora paizão, ora terror dos novatos. Ora amigo, ora colecionador de desafeto entre os veteranos. Segue tendo a certeza que está no caminho certo.

É um pouco de mim. Dois anos atrás. O acidente na parte da manhã na fábrica, nunca quinta-feira. No domingo levantei, melhor, despertei dos remédios. O primeiro choque: o mundo no escuro. E procurei abrir os olhos, e a luz não aparecia. Senti medo. Um calafrio na espinha. Gritei. Drogaram-me de novo.

Mais calmo, quase conformado, duas semanas depois estava sentado na cadeira de rodas descendo a rampa. Livre do hospital, aprisionado à escuridão pavorosa. Em casa, somente as vozes davam um ar de família. Tudo o mais não existia. Que saudade chegar em casa, cor rer ao banheiro e despejar a água no sanitário. Tive que ser conduzido por meus irmãos.

Nunca fui o operário padrão, com foto estampada como funcionário do mês: para a alegria dos chefes, ódio dos colegas e mico de si mesmo. Contudo, sempre curti trabalhar. Tomar ônibus lotado, às sete da manhã, bem exprimido, pisado no pé. Quando alegre, vibrando pelo Timão e quando brabo xingando o presidente. Assovia pras gatas que atiçavam meu instinto. Gentil com quem me era gentil. Ah, tinha as peladas de fim de semana, e se me deixassem no gol, o pau comia. No mínimo, meio campo.

Não que a cegueira tenha afastado meus amigos. Eles vêm me visitar. Até me levaram pro futebol. Pena que a coisa não virava. Eu ali paradão. Como vibrar com uma jogada, se não a via? Como concordar que uma menina é linda se não a vejo? Pior, estando cego, como jogar com eles? A condição de coitadinho do grupo me encheu e dei um tempo.

Hoje, me sinto melhor. Claro, se pudesse voltar um ano atrás, fugiria do acidente. Encostado pelo INSS, já não trabalho na fábrica. Mas conheci uma ONG e toco música para crianças em creches e escolas de periferia.

*ronaldo duran, escritor, colabora neste espaço toda semana. contato: www.facebook.com.br


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