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08 de fevereiro de 2012

Sua Vez/ronaldo duran

Ronaldo Duran: Bolão contra*

Publicado em 27/06/2010, às 16h16
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ronaldo duran

_ Vai dizer que de novo apostará contra o Brasil?

_ Alguém tem que fazer o trabalho sujo... – mostrou um sorriso comedido.

Eram mais de quarenta pessoas na repartição. Como brasileiro ama futebol, e venera a Seleção, ficam as possibilidades cada vez mais estreitas. Na liderança vinham as apostas no 2x1. Os mais tímidos ou receosos ficavam com o 1x0. Os 3x, 4x, 5x representavam a turma dos animados. E se muitos querem apostar contra o Brasil, poucos têm a coragem de pôr o desejo em prática.

_ Soa tão pouco patriota? – alguém fala.

_ É a pior demonstração de avareza, mesquinharia pura – outra segue o embalo das reprovações sociais.

_ Nada. Ele só está apostando. .. Que graça tem se todos arriscarem na vitória do Brasil – o duas-caras do grupo buscava defender o colega, embora que em sua ausência os comentários fossem mais evasivos.

O polêmico sujeito nem aí para as críticas. A bem da verdade, curtia o Brasil, torcia a cada jogo para vitória, quase como um apaixonado. Mas paixão é paixão, e negócio à parte. No princípio, inventou de ser contra o Brasil mais para a turma do Bolão se indignar e o deixar em paz do que realmente torcer para derrota brasileira.

Não foi uma nem duas vezes que se recusou a participar das apostas anteriores. Agora, em 2010, depois de duas copas recusando participar da jogatina, acabou cedendo. O convite era insistente, e com ele a deixa de antissocial, quando da recusa, produzia mal-estar nele diante do grupo.

_ Mas daí quererem escolher minha aposta... Vão tomar no c. todos! Vou apostar em quem eu quiser.

Apesar de ser homem quieto, de poucas palavras, vendo-se provocado pelos colegas, hora e outra dá respostas que torna a relação espinhosa.

_ Enquanto o Brasil passou com 2x1 apertado pela Coreia do Norte, Portugal meteu 7x0. Será que desta vez eu levo o Bolão?

_ Sai para lá urubu... Vai azará outro. O Brasil encontrará forças para bater mais este adversário.

_ É o que todos esperamos – haveria uma gota de sarcasmo da parte dele? De qualquer maneira os defensores do Brasil não baixaram a guarda.

_ Menos você... Quem aposta por dinheiro que o próprio País vai ser derrotado, pouco amor nutri...

_ Pode ser... Mas não no meu caso. Se o Brasil ganhar não ficarei triste.

_ As mulheres, mais passionais, queriam voar em cima dele, esbofeteá-lo, tamanho o desconcerto que a observação lhes provocava.

Longe do serviço, no conforto do lar, curtindo a solidão de um divorciado, cujas filhas já estão encaminhadas na vida, e diante de um namoro que se desponta no horizonte, ele é completamente diferente.

Na hora do jogo, quem o visse em casa não o reconheceria. A sala de estar pronta para assistir o jogo do Brasil. O peito e cabeça latejando a cada lance errado da Seleção brasileira. Xingando adoidado a cada investida do adversário. Morde os dedos, anda para lá e para cá. Reclama do árbitro – eterno ladrão quando pune o time que torcemos.

O gol que chega dá vontade de rir, de vibrar, de chorar, de pular. Ele não passa vontade, soltando a tensão que o atormentou.

É a característica da vida privada de muitos: nem sempre anuncia o objeto de prazer aos quatro ventos.

* ronaldo duran, romancista, psicólogo, colabora neste espaço toda semana. www.facebook.com www.twitter.com/escritor.ronaldoduran


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