O primeiro prêmio literário recebido pela dupla José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta, ainda no final da década de 80, veio de uma paródia bíblica.
"Assim Caminha a Glória de Deus", peça nunca encenada, narra a disputa entre Jesus e seu irmão, Cristóvão, pela conquista dos fiéis.
Desde então, retornar ao universo bíblico num trabalho de fôlego maior nunca saiu da cabeça da dupla.
Mais de 20 anos depois, o projeto tomou forma com "O Evangelho de Barrabás", romance recém-lançado pela editora Objetiva.
Personagem do qual quase nada se sabe, Barrabás participou de um momento fundamental do catolicismo.
Condenado à morte por seus crimes, ele participou ao lado de Jesus da "disputa" proposta por Poncius Pilatos, espécie de governador da Judeia: o povo escolheria qual dos dois seria libertado e qual iria para a cruz.
O resultado, como se sabe, foi favorável a Barrabás, que também conquistou a preferência de Torero e Pimenta.
Antes dele, a dupla pensou em Judas, Maria Madalena e no próprio Jesus como protagonistas de uma versão cômica do Evangelho.
"Mas Barrabás é um personagem fascinante. É um outro, um desconhecido que venceu Jesus", diz Torero.
Um "outro" que assume o papel principal no livro. Com Jesus, o Barrabás de Torero e Pimenta tem muitas coincidências: seus pais chamam José e Maria, nasceu de um ventre virgem, é autor de milagres (ou pelo menos assim pensam seus seguidores).
Pelo caminho de Barrabás também passou Maria Madalena, que fica dividida entre segui-lo ou a Jesus.
COADJUVANTES
Narrar um contexto histórico real a partir de um personagem secundário não é novidade para os autores.
Em "Terra Papagalli" (1997), primeiro livro publicado da dupla, o descobrimento do Brasil era revisto pelos olhos do degradado Cosme Fernandes.
Antes Torero já havia escrito (sozinho, mas citando Pimenta nos agradecimentos) "O Chalaça" (1995), recriação da vida de Francisco Gomes da Silva, secretário particular de dom Pedro 1º.
Em todos eles, é tênue a linha que separa a ficção da referência histórica.
Em certo capítulo do novo livro, Barrabás cruza com porcos "suicidas", possuídos pelo demônio.
A improvável passagem, no entanto, está realmente nos evangelhos.
"Partindo do pressuposto de que tudo o que está na Bíblia é verdadeiro, nosso livro é 80% fiel à realidade. Agora, se tudo aquilo é ficção, nada é verdade no que escrevemos", ri Pimenta.
De famílias religiosas, eles assumem-se como "ateus não praticantes". O que, evidentemente, não lhes tira o prazer de ler a Bíblia. Nem que seja para fazer graça.
"A Bíblia é a narrativa fundadora do Ocidente. Todos os grandes autores a leram e tiraram de lá personagens e situações. É um mundo gigantesco de ideias, é muito inspirador", diz Pimenta.