Sem que tenha cometido quaisquer crimes, sem que sobre ela pesasse nenhuma acusação, Anayde Beiriz foi condenada a primeira vez como prostituta de João Dantas pela Aliança Liberal em 1930, tendo seu nome execrado e expurgado da consciência de quase toda uma geração. Em 1983, por obra e graça de Tizuka Yamasaki" (diretora do filme "Parahyba, mulher macho"), "Anayde foi condenada mais uma vez, também como libertina e prostituta debochada".
É assim, sem meias palavras, que o médico e escritor Marcus Aranha, abre caminho para a polêmica histórica e propõe-se a "desfazer a detratação mítica" feita com a professora e poetisa paraibana cujo centenário de nascimento comemora-se no próximo dia 18. Marcus lançará amanhã o livro "Anayde Beiriz - Panthera dos olhos dormentes", com uma exposição iconográfica que será aberta às 9 horas, no Sebo Cultural (Av. Tabajaras, 848 - Centro), e ficará durante toda a semana.
O médico Marcus Aranha, 63 anos, paraibano de João Pessoa, começou a exercer a sua hoje reconhecida condição de escritor como colaborador de O NORTE, em 28 de abril de 1990, aos domingos, com artigos sobre sua especialidade profissional. O primeiro deles foi "Brasil novo: nova saúde", sobre a atuação do ministro Alceni Guerra, no governo Collor. Depois que obteve seu registro como jornalista colaborador, o articulista começou a escrever sobre assuntos diversos, num estilo variante entre a leveza, a denúncia e a ironia, sendo hoje referência constante até em listas de discussões através da Internet.
Marcus Aranha tomou gosto pela nova atividade, tornou-se membro fundador de uma organização não governamental, a Parahyba Verdade, e decidiu debruçar-se sobre a figura de Anayde Beiriz. Seu livro é de uma importância fundamental, mudando a história e imagem cultivada em torno de Anayde a partir da popularização nacional de seu nome através do filme "Parahyba, mulher macho", que a diretora Tizuka Yamasaki lançou em 1983.
Agora, passados pouco mais de 20 anos da estréia do filme, Marcus Aranha - depois de exaustivas pesquisas, feitas na Paraíba e no Rio de Janeiro, e de obter documentos, fotos e autorização dos familiares de Anayde - afirma que a cineasta "usou exageradamente da fantasia e fez de Anayde, do começo ao fim do filme, uma prostituta apaixonada por um reacionário. Mesmo tão premiado, o filme é pleno de inverdades e deturpou completamente as personalidades dos que nele são retratados, notadamente a de Anayde Beiriz".
O grande recurso utilizado pelo autor em seu livro para mostrar a verdadeira maneira de ser de Anayde é a publicação integral da correspondência trocada entre Anayde e aquele que foi claramente seu mais forte amor (muito mais do que o advogado João Dantas): o estudante de medicina Heriberto Paiva. Isso é comprovado a partir do próprio diário de Anayde, ao qual Marcus Aranha teve acesso, por ela intitulado "Cartas do meu grande amor - Dolorosas reminiscências do sonho desfeito da minha mocidade". Os familiares da poetisa, através de Ialmita Grisi Espínola Guedes e Martônio Coutinho Beiriz, autorizaram ao médico-escritor a publicação das cartas, que vinha sendo inacessíveis à imprensa, a historiadores e a pesquisadores desde a tumultuada década de 30.
Quando Marcus Aranha finalizou o livro, em seu ateliê de trabalho literário na Ponta do Seixas, em outubro do ano passado, antes de passar os originais para a Editora Manufatura, ele anotou comovido, como hoje confessa, sobre a correspondência entre Anayde e Heriberto: "Parece deixar entrever um ser feminino com sonhos e desejos absolutamente normais. Uma Anayde que almejava um casamento, uma casinha, dois filhos, paz e outras trivialidades pertinentes a um estado de espírito ainda hoje apelidado de Felicidade. A leitura das cartas desses dois namorados pode ensejar ao leitor fazer juízo e concluir como era realmente a verdade personalidade da professora, intelectual, cronista, contista e poetisa, sobretudo a mulher, a Anayde Beiriz que nasceu e viveu na Parahyba. Finalmente, talvez seja o começo do surgimento da Verdade".
Conhecido como perfeccionista na Medicina e na administração hospitalar, Marcus Aranha levou essa característica de sua personalidade para a pesquisa histórica. Tanto que a exposição que ele montou com o patrocínio da ONG Parahyba Verdade, a partir de amanhã, no Sebo Cultural, não estará limitada aos painéis com fotos até agora inéditas de Anayde Beiriz e pessoas que com ela conviveram. A mostra terá o requinte (não luxuoso) de fazer com que o público conheça objetos usados pelas pessoas na época em que Anayde viveu, desde uma escrevaninha, um telefone, uma máquina de costura, um rádio de válvulas, uma máquina fotográfica, até uma vitrola de corda que ainda funciona, para tocar discos em 78 RPM. Não faltarão também pratos, estatuetas e frascos de perfume.
A ONG Parahyba Verdade, que co-editou livro com a Manufatura, informa que "Anayde Beiriz - Panthera dos olhos dormentes" estará à venda a partir de amanhã, ao preço de R$ 25,00, no Sebo Cultural, na Arquiarte e nas lojas de fotografia Neywa.
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